sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Pavilhão Dourado

Neste livro, Yukio Mishima apresenta-nos Mizoguchi um jovem gago, filho de um príor da cidade de Kyoto, no após 2ª Guerra Mundial, que não se destacando socialmente decide tornar-se monge.Logo ele será tomado pela fascinação ao Pavilhão Dourado, o templo onde vivem os monges de Kyoto.Seu entusiasmo pelo templo é tanto que chega à mistificação.O templo acaba tornando-se para Mizoguchi um símbolo de beleza, um ideal de perfeição, tudo o mais surgiria em segundo plano ao templo e ao que ele representava.Sua devoção ao Pavilhão é tamanha e a influência deste sobre si e sobre o modo como ele entendia tudo ao seu redor impede-o de se relacionar com as coisas de um mundo real imperfeito.
Seu conhecimento deste mundo dos homens vem de suas amizades, uma delas da época da infância, Tsurukawa, um jovem que ao contrário de Mizoguchi é expansivo e otimista.Depois de ordenado, Mizoguchi conhece Kashiwagi, um jovem com uma deficiência física mas que cujo conhecimento do mundo é bem maior do que o de Mizoguchi, o que o faz agir constantemente com cinismo em relação às outras pessoas.
Mizoguchi é perturbado também por seus desejos irrealizados pelo que ele acha ser uma má influência do templo sobre sua visão de mundo, a noção de vulgaridade que engendrou e que o impede de entregar-se às mulheres e à vida de um modo geral.A ponto do jovem chegar à conclusão de que para conseguir exercer plenamente seus desejos teria que destruir dentro de si a presença dominadora do Pavilhão Dourado, começa negligenciando os estudos, fugindo dos limites do templo e, por fim, concluindo que a única coisa a fazer era atentar contra a própria construção do Pavilhão, por meio de um incêndio que o destruisse por completo.
É impressionante como Yukio Mishima detalha em seu texto tanto formas como sensações, tanto as paisagens territoriais como as da alma.A complexidade dos acontecimentos, e de tudo o que acaba por desencadeá-los é de uma acuidade que poderia-se achar ter o escritor passado por tudo aquilo.Trata-se de uma novela sólida em seus personagens e nas razões que lhes arrastam a tomar decisões, às vezes injustas, mas nunca impensadas.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Primeira Pessoa

Os dois primeiros contos do livro da escritora Ali Smith são os melhores da coletânea.O primeiro, "Um conto real", flagra um momento em que a autora acompanha, meio incógnita num café, a discussão de dois frequentadores sobre as naturezas distintas do conto e do romance.Segundo um dos interlocutores o conto seria uma ninfa leve e o romance, uma "puta gorda e velha", que já teve sua serventia mas que agora provoca apenas desinteresse.O segundo conto, "A criança", conta a história surreal de uma jovem que em meio às compras num supermercado dá de cara com um bebê abandonado no carrinho que utilizava.Ela tenta se desvencilhar da criança, tenta fazer com que os outros entendam que não se trata de um filho seu, sem sucesso.Ela acaba o levando pra casa quando surpreendentemente o bebê começa a emitir numa voz perfeita e articulada as mais preconceituosas opiniões somadas a piadas politicamente incorretas.
Os outros contos perdem-se um pouco diluídos em exercícios narrativos enfadonhos e que não levam a lugar algum.A autora abusa do vocativo "ela disse", "eu disse", "você disse", tornando a leitura do texto por vezes uma experiência torturante.
A característica que mais sobressai dos contos de Ali Smith é esse surrealismo que emerge de situações inicialmente banais.Algum elemento perturbador que interferindo na rotina acaba mostrando o quanto de absurdo ela é feita, mesmo sendo algo considerado corriqueiro.